_O Leviatã virtual
Ou “o que eu aprendi tentando me tornar um ermitão digital”
"Skeleton soldiers, a horse with the head of a man, and other monsters advance in the growing darkness" (Kawanable Kyosai, 1890).
Sou bastante afeito às promessas de fim de ano, mesmo que seja péssimo em cumpri-las, como todo mundo (e talvez a graça esteja, exatamente, nesse acordo falso que fazemos com nós mesmos, numa linha tênue entre a magia da possível transformação, a artimanha do autoengano e a patética realidade que se impõe depois). Para 2025, pensei em várias coisas que eu queria mudar (e o ato de publicar, com alguma consistência, e sem se preocupar tanto com revisões e reescritas, é parte disso e do que me trouxe até esse humilde blog), e decidi, mais uma vez de forma bastante geracional, que a relação com as redes seria um ponto-chave.
Uma série de incômodos surgiam com elas: o primeiro era o mais imediato, e com certeza você leu bastante sobre ele nessa rede e em várias outras. As pessoas estão abandonando em massa as redes sociais porque elas prejudicam a atenção, são tóxicas em vários aspectos, criam uma dinâmica negativa quanto à autoimagem, e uma série de outras coisas que, com certeza, você sabe, como problemas cognitivos, no famoso attention span, na retenção de informações e também na saúde mental, condicionando ansiedade, depressão e prejudicando o sentido de alguns relacionamentos sociais, como as alterações nos modos de amizade. Esse texto não será sobre isso, até porque eu sei que você já leu sobre isso no Substack. Sei também que há, nisso, uma certa questão sobre “poder sair das redes”, pois em alguns trabalhos ou posições sociais aquela exposição é absolutamente necessária, mas isso é outra discussão e não irei me ater a ela aqui. A carreira acadêmica me permitia um certo distanciamento e ficar nas redes era, naquele momento, muito pouco saudável.
Um segundo aspecto, e talvez mais importante, é o de demarcar uma posição política contrária aos donos das empresas que gerem essas redes e suas tentativas de fazer do mundo um brinquedo, numa certa uberização do Estado (termo usado numa coluna bastante interessante do Calheiros) em que todos os serviços públicos se tornam um balcão de negócios para magnatas e seus aliados. Ao mesmo tempo, os acenos ao fascismo tornavam intragável ser produto daquele sistema, legitimá-lo ao estar ali. Os dilemas éticos em torno do uso desses serviços são muitos e bem documentados, como a privacidade e segurança dos nossos dados, as implicações dos usos comerciais de nossa atenção e de nossas informações, assim como vieses algorítmicos que legitimam discursos e representações socialmente dominantes, etc. Esse artigo (juro que é curtinho) dá um panorama das questões relacionadas à privacidade que devemos ter atenção.
Por fim, feliz ou infelizmente, eu sou meio maluco.
Foi mal, amizades.
A minha reclusão digital consistiu, assim, de tentar substituir tantos serviços das Big Techs quanto fossem possíveis por opções, preferencialmente, de código-aberto e que focassem na construção de uma comunidade diferente, ou de uma internet diferente (e, ao mencionar internet, peço que vocês leiam esse texto da Clara Browne para pensar o tema de forma mais profunda). Caso você também queira se tornar um ermitão digital, segue um tutorial resumido: o primeiro passo é ficar sem redes sociais, evidentemente, ou substituí-la por opções baseadas no fediverso, como o Mastodon e o Pixelfed. Depois, você precisa substituir os serviços da Google, e isso é um pouco difícil. O Proton Mail e o Proton Drive fazem bem os trabalhos do equivalente da Google, mas os mecanismos de busca são todos bastante insatisfatórios, assim como o próprio Google atualmente. Acabei oscilando bastante entre o Brave Search e o DuckDuckGo. Trocar o Whatsapp por opções como o Signal também é importante, mas foi o único ponto que acabei não realizando – o que eu considerei, naquele momento, uma hipocrisia necessária à sobrevivência, já que a outra opção seria não receber mensagens da minha orientadora sobre a minha dissertação, o que claramente não era uma opção. Logicamente, não usar nada da Amazon, evitar streamings e serviços tipo-Uber ou iFood, acho que você já pegou a ideia. Há, também, uma alternativa legal ao Youtube, baseada em APIs da Invidious, mas é melhor que você descubra sozinhe. E, claro, não usar inteligências artificiais (especialmente da OpenAI), mas isso você já não devia estar fazendo mesmo).
Não havia um plano específico além de resolver os incômodos citados acima, mas depois de algum tempo, percebi alguns efeitos que inspiraram, em certa medida, a escrita desse texto.
A internet parece meio vazia sem os mesmos quatro sites, no começo. Como quase tudo na internet, hoje em dia, é produzido pensando na lógica das redes ou para usar as redes como um modo de fazer as pessoas chegarem aos outros sites, e como esse ecossistema se tornou profundamente monopolizado – e talvez por isso, também, o Substack seja tão interessante, por lembrar um pouco (numa versão triste, onde ainda dependemos de um serviço ao estilo rede-social) os antigos blogs e a experiência de se perder uma internet grande, onde cada pessoa fazia as coisas mais ou menos como queriam e ainda não havia uma otimização, ou éramos novos e inocentes demais para percebê-la. Lembro de passar horas em blogs aleatórios, descobrir sites estranhos, e isso de certo modo voltou com bastante força quando os meus meios de distração na internet não eram, mais, rolar um feed e ver as pessoas construindo representações ideais de suas próprias vidas. Tipo, você sabia que tem um site pra ficar olhando janelas? É meio estranho, mas tem seu charme. Um prato cheio para escritores imaginarem cenas, inclusive. Assim, o tempo-sem-redes pareceu também uma redescoberta dessa inocência no uso das redes como entretenimento, mas não é a mesma coisa. Tanto estou mais velho, quanto algo mudou sem retorno: a máxima do velho Marx parece se aplicar aqui. É a história repetida, dessa vez como farsa.
Por isso, ficou também uma sensação de que fugir de verdade é impossível. Mesmo ao não usar os serviços, ir para alternativas de código-aberto, etc., como essas empresas são a própria lógica da internet contemporânea, os micro-serviços delas continuavam em todos os lugares, meu celular Android me lembrava que a Google ainda me rastreava, a distância das pessoas que eu conhecia me fazia ter vontade de voltar ao Instagram pra ter, outra vez, um senso de comunidade, ou alguma distração fútil enquanto as correções da dissertação me esperavam. Esse processo me trouxe uma certa crise que acredito ser comum a qualquer tentativa de militância solitária: aquela sensação constante de se perguntar se eu faço alguma diferença. Eu sabia a resposta, não existe vitória antissistema que não seja coletiva, e a solução para isso é se engajar em projetos que acreditamos. Ao mesmo tempo, parecia que o espaço em que eles se organizavam eram as redes.
Mas nem tudo são espinhos: Nesse processo de redescoberta há, também, memória, clareza, motivo: uma manhã dessas lembrei do biscoito de banana que eu adorava, quando moleque, e tive memórias de minha infância que não pareciam mais possíveis de serem acessadas. Além disso, a clareza na consciência também foi um efeito bastante positivo que senti, pois fugir da sobrecarga de informação torna possível elaborar ideias próprias, fazer as próprias associações, descobrir caminhos em nossa mente que não achávamos antes, com a atenção achatada por esse processo tão estranho – lembrei de leituras, de autores e de ideias, e tive tempo de mastigá-las sozinho, escrevê-las para mim mesmo, deixar que elas crescessem em mim e formassem jardins nas avenidas da mente.
De modo correlato, buscar as próprias notícias dá uma intencionalidade ao processo de se informar. O modo como as notícias chegam até nós, hoje em dia, é majoritariamente via Tweets. Escolher quais jornais eu leria, abrir suas páginas intencionalmente pela manhã, decidir, dentre as ‘capas’, quais notícias mereciam minha atenção ou a capturaram, toda essa intencionalidade transforma a nossa relação com o mundo e a torna mais crítica e engajada: não parecia que eu estava sendo levado às questões, como sempre acontece nas redes, mas sim que eu chegava até elas num caminho que eu mesmo tracei. Que as notícias sejam desesperadoras é reflexo do mundo, mas o distanciamento racional de escolher quais ler, e ler uma notícia escrita por um humano, era um certo consolo nesses tempos.
Enfim, para não tornar o texto muito extenso, concluo me perguntando (e te perguntando, também), o que tiramos disso tudo? A primeira conclusão que eu cheguei é que o problema não é estar, ou não, nas redes. Essa posição das redes como ágora contemporânea me incomoda(va) muito: em certo sentido, se tornou um lócus de mediação política, de construção de discursos e onde muitos processos de militância ou demandas sociais são construídas, elaboradas e levadas à arena pública. Que isso aconteça em produtos de empresas privadas, controladas pelas decisões e rompantes de um pequeno número de homens imaturos e de posição política duvidosa, é tremendamente problemático, mas é, também, um pouco inescapável.
Portanto, de uma perspectiva mais pragmática, estar fora das redes impede de apoiar iniciativas que acredito, vias políticas que buscam legitimidade, o discurso dos poucos candidatos que ainda representam uma agenda de esquerda real (e.g. Erika Hilton), dentre outras questões. A ação política nas redes sociais facilitou (ou deu maior voz, no mínimo) a algumas formas de ativismo, especialmente em períodos de crise política. Essas redes também possibilitam (embora não seja a forma ideal) que movimentos de base se organizem sem uma autoridade central e transformam as formas tradicionais de participação política (especialmente em momentos de eleição). Engajar-se com o que acreditamos, mesmo numa lógica tão doentia, parece ser a melhor posição possível: diante da impossibilidade de se livrar das redes, transformá-la parece ser o “caminho correto”, demandar sua regulamentação, informar as pessoas sobre os perigos, modos de uso, e caminhar ao lado das organizações que constroem, um pouco, as fundações de um mundo vindouro que nos faz continuar caminhando. Isso não exclui, evidentemente, o engajamento real (política se faz nas ruas), mas é uma forma adicional e importante de construir esses debates.
De uma perspectiva pessoal, é uma forma de não se desgarrar das pessoas que conhecemos, de manter, como minha irmã me disse, um certo senso de comunidade em torno da nossa existência, fundamental para não enlouquecer. O que eu aprendi tentando fugir das Big Techs é que não se trata de simplesmente evitar seu uso, num protesto silencioso e individual, mas construir formas de viver que não sejam no tempo delas, criando assim um espaço onde é possível respirar. Se quiser, e eu sigo nesse caminho, apesar de algumas concessões, troque todos os serviços, sim, e dependa o mínimo possível dos oligarcas digitais que querem te tornar um produto. Apoie as iniciativas que você acredita. Mas sair ou não do Instagram não vai mudar nada se algo não mudar aí dentro também. E, às vezes, estar lá torna algumas mudanças possíveis.





é isso... a dinâmica da internet se tornou claustrofóbica, não ter pra onde fugir deixa ainda mais evidente a concentração de poder e dinheiro na mão de poucos.
todas as tentativas de salvar nosso cérebro desse caos são bem vindas, mas a organização política é a única forma de mudar alguma coisa. é a velha história...